Posts de Agosto, 2006

Lojas Bacanas, Histórias Legais

Agosto 3, 2006

Quando estava terminando de escrever o texto anterior, fiquei lembrando das minhas lojas favoritas e dos bons momentos que passei nelas.

Na minha fase áurea de consumo de música, lá pelos anos 80, eu trabalhava no centro na Rua Barão de Itapetininga e estava no paraíso das lojas de música.

As principais ficavam pela região. Passei muitas horas em lojas como Bruno Blois, Breno Rossi, Wop Bop, Bossa Nova, Baratos Afins, Museu do Disco e deixei por lá muitos Cruzeiros, Cruzados, Cruzados Novos, já nem lembro mais….

Lembro bem de alguns momentos inesquecíveis de uma época de descobertas. Ai vão alguns:

- Numa tarde chuvosa de sábado eu estava na Bruno Blois da 24 de Maio vendo os lançamentos, quando um dos vendedores da loja entra correndo e esbaforido informa que ”o Raul estava entrando na loja”. Os vendedores euforicos já se preparavam para mostrar as novidades do velho e bom rock´n roll para o Raul (Seixas), quando o cara entra e pergunta pelo depto de clássicos. Informado que ficava no segundo andar, se dirigiu para lá. Aí o vendedor esbaforido decepcionado, desabafa: “p.q.p, o rei do rock entra na loja e vai pro depto de clássicos, porra!”

- Noutra ocasião fui a Bossa Nova, uma loja mais moderninha que ficava no fundo de uma galeria da Barão de Itapetininga, procurar uma fita cassete de um show do “Cocteau Twins”. Esbarro num cara de barba mau feita e camisa de flanela ensebada se deliciando nos LP´s. Era um tal de Renato Russo.

- Assisti um filme (em VHS) bem bacana de nome “A Força do Amor (Breathless)” que era uma refilmagem invertida do clássico “O Acossado” do Godard, com o Richard Gere e Valerie Kaprisky. A música era muito boa e tinha “Suspicious Minds”, sucesso do Elvis em versão do Fine Young Cannibals. Mas o que me fisgou foi um tema de piano, uma melodia repetitiva e hipnotizante. Tentei ver nos letreiros do filme, pesquisei, perguntei nas lojas.. (na era pré-internet era duro achar…) e nada. Acabei desistindo. Algum tempo depois lí na Folha de SP que o Museu do Disco ia lançar com exclusividade 2 LP´s do Philiph Glass e lá fui eu em busca de novidades. Como a grana era curta tive que escolher um e não pude ouvir pois os discos estavam lacrados. Então optei por um de nome “Glassworks”. Ao chegar em casa, coloquei a bolacha pra rolar… e fiquei sem folego! A primeira música do LP era a que eu havia procurado por tanto tempo. Chama-se “Opening” e ainda hoje é uma das minhas favoritas.

- Na Bruno Blois tinha um vendedor que dava show. Um cara jovem, uma farta cabeleira, acho que era mineiro. Atencioso, sabia de música e conhecia a arte de vender. Sempre me fazia sair da loja com uma sacola carregada de “bolachas”. Numa determinada ocasião não o encontrei mais. Fui informado que havia saído do emprego. Continuei comprando por lá e em outras lojas também. Depois de muitos anos, meu amor pela música me levou à trabalhar no ramo. Numa ocasião, acho que em 1999, estava visitando uma feira do segmento e ao passar num determinado stand, ouço alguém perguntar: “Você ainda gosta de Paulinho da Viola?”. Olhei pro cara e então…. demorei alguns segundos para reconhecer. Era o tal vendedor, que mesmo depois de muitos anos e das marcas do tempo tinha me reconhecido e também lembrou do que eu gostava. Ele também tinha mudado muito, estava careca e muito mais gordo. Contou que havia deixado a loja pois recebera um convite para trabalhar no depto comercial da gravadora BMG. O nome não estou bem certo se era Nilson ou Newton.

Tiozinho Digital

Agosto 3, 2006

Nestes dias terminei de ler “31 Canções” do Nick Hornby que ficou um bom tempo na minha “lista de espera” de livros.

Lá na página 126, no capítulo que fala da música “Hey Self Defeater” de Mark Mulcahy, ele abre um “em tempo” para falar de lojas de discos.

Fala da ”Wood”, a pequena e esperta loja de seu amigo Lee, que encarava o desafio de disputar seu espaço com lojas tipo Towers. No final do texto ele implora para que seus leitores comprem na “Wood” ou equivalente. O livro é de 2003 e foi publicado no Brasil em 2005.

Naquele momento ele não conseguia ver a ameaça maior para o negócio loja de discos e que estava logo ali na frente. A música digital, feita de seus próprios cds, comprada ou obtida gratuitamente.

Provavelmente ainda hoje ele ainda deve continuar comprando os seus discos (talvez não na Wood que já deve ter ido para o vinagre) em alguma loja sobrevivente. Afinal ele é da tribo dos “tiozinhos que ainda compram cds”, título da materia publicada na Folha de SP, coluna do Álvaro Pereira Júnior. A matéria menciona outra recente do New York Times que,  resumindo grosseiramente, diz que “as lojas estão ficando grisalhas”, pois jovens não compram cds, baixam o que querem da Internet. Para sobreviver as lojas estão diversificando em serviços e focando no consumidor grisalho, saudosista e apegado ao plástico.

Ele termina o texto dizendo que se fosse diretor de gravadora estaria muito preocupado.

Pensei em aproveitar a deixa e falar de gravadoras…. mas vou deixar este tema para uma próxima oportunidade.

Apesa de ser da geração LP / CD, não sou saudosista. Tudo bem que eu ainda compre cds. Mas também baixo, digitalizo… E adotei um iPod!

A experiência das lojas de cds bacanas ficaram no passado. Tudo bem que era demais frequentar estas lojas e trocar idêias com vendedores que amavam e entendiam de música.

Mas agora a experiência é outra. Não é necessário esperar meses até que o disco seja lançado no Brasil. Hoje sai simultaneamente, se não sair antes. Isto sem dizer que você pode estar em casa, lendo sobre um artista ou disco e imediatamente obter e ouvir as músicas.

Isto sim é que é experiência de consumo!!!