Nestes dias terminei de ler “31 Canções” do Nick Hornby que ficou um bom tempo na minha “lista de espera” de livros.
Lá na página 126, no capítulo que fala da música “Hey Self Defeater” de Mark Mulcahy, ele abre um “em tempo” para falar de lojas de discos.
Fala da ”Wood”, a pequena e esperta loja de seu amigo Lee, que encarava o desafio de disputar seu espaço com lojas tipo Towers. No final do texto ele implora para que seus leitores comprem na “Wood” ou equivalente. O livro é de 2003 e foi publicado no Brasil em 2005.
Naquele momento ele não conseguia ver a ameaça maior para o negócio loja de discos e que estava logo ali na frente. A música digital, feita de seus próprios cds, comprada ou obtida gratuitamente.
Provavelmente ainda hoje ele ainda deve continuar comprando os seus discos (talvez não na Wood que já deve ter ido para o vinagre) em alguma loja sobrevivente. Afinal ele é da tribo dos “tiozinhos que ainda compram cds”, título da materia publicada na Folha de SP, coluna do Álvaro Pereira Júnior. A matéria menciona outra recente do New York Times que, resumindo grosseiramente, diz que “as lojas estão ficando grisalhas”, pois jovens não compram cds, baixam o que querem da Internet. Para sobreviver as lojas estão diversificando em serviços e focando no consumidor grisalho, saudosista e apegado ao plástico.
Ele termina o texto dizendo que se fosse diretor de gravadora estaria muito preocupado.
Pensei em aproveitar a deixa e falar de gravadoras…. mas vou deixar este tema para uma próxima oportunidade.
Apesa de ser da geração LP / CD, não sou saudosista. Tudo bem que eu ainda compre cds. Mas também baixo, digitalizo… E adotei um iPod!
A experiência das lojas de cds bacanas ficaram no passado. Tudo bem que era demais frequentar estas lojas e trocar idêias com vendedores que amavam e entendiam de música.
Mas agora a experiência é outra. Não é necessário esperar meses até que o disco seja lançado no Brasil. Hoje sai simultaneamente, se não sair antes. Isto sem dizer que você pode estar em casa, lendo sobre um artista ou disco e imediatamente obter e ouvir as músicas.
Isto sim é que é experiência de consumo!!!
Setembro 11, 2006 às 5:01 am
Olá Felipe.
Grande Hornby! Sou fã também (apesar de ter lido ainda poucos livros dele).
Eu acredito que a própria natureza de consumo de músicas está mudando. Claro que ainda o modelo baseado em gravadoras e direito autoral ainda continuará existindo e se modificando frente a essas questões, porém o que acredito é que haverá uma certa descentralização do poder decisório de compra, por parte do consumidor. A informação sobre novos produtos correrá mais horizontalmente.
Veja por exemplo o caso da Creative Commons. Há mais ou menos um ano lí um livro de um cara chamado Ronaldo Lemos, que é o representante da Creative Commons no Brasil. Interessante notar toda uma criação de um consenso ou de práticas que motivem a circulação de música com base em um novo aparato jurídico. Isso inverte toda uma forma de propriedade intelectual e de regulamentação. Quem souber ver isso certamente terá oportunidade de colher os benefícios, apesar de ainda ser muito cedo pra dizer se será, ou quando, amplamente difundido.
Abraços,
Ricardo
Setembro 12, 2006 às 4:12 am
Oi Ricardo,
do Hornby, os meus favoritos são o manjadissimo “Alta Fidelidade” e “Febre de Bola”. Livros de auto-ajuda para homens adultos, quase carecas e apaixonados pelas coisas mais importantes dentre aquelas que não tem a menos importância: Futebol e Música (acho que ouvi o Juca Kfouri falando isso sobre futebol, e tomei a liberdade de acrescentar a música).
Ninguém segura mais os projetos de música digital, e é bacana ver executivos de gravadoras que eram receosos e cheio de cuidados para tratar do assunto, anunciar que o “futuro é digital”.. Uau, isso é que eu chamo de ter visão, né?
Quanto ao Creative Commons eu tive algum contato com o assunto, quando estive na Trama, onde avaliamos a utilização em um projeto de música independente e em uma interessante apresentação feita pelo Ronaldo em um evento da empresa.
Acho que é um embrião que vai crescer, e pode se tornar algo muito grande. Porém o projeto esbarra em uma instituição muito forte: o direito autoral.
A música esta tomando outros caminhos e não é o direito autoral que vai conseguir impedir. É importante uma revolução já!
A última edição da revista Wired (que em fevereiro/2003 trouxe uma série de reportagens decretando “O Ano que a música morreu”) estampa na capa cantor Beck tendo como tema “O renascimento da música”.
Em várias matérias se aborda o novo momento da música (e formas de consumo). Seja ela qual for.
Ainda não lí tudo, mas há uma interessante entrevista com o Beck onde ele fala do que está explorando, como lançar seus novos trabalhos com possibilidade do consumidor customizar a capa, remixar as músicas, o álbum ter uma versão em vídeo no YouTube, enfim…. um álbum não será mais “um álbum” mas talvez vários, em diversos formatos.
Outra coisa interessante que ele fala é da possibilidade dos artistas produzirem e distribuirem diferentes tipos de trabalhos por diferentes canais, em diferentes formatos. Enfim.. tudo pode!
Devo confessar que tenho sentido falta disso. Afinal os artistas podem entrar em estúdio na hora que desejarem (e a criatividade permitir) e produzir algo novo. E imediatamente colocar na distribuição. Sem precisar esperar juntar 14 para compor um álbum.
Mas.. enquanto isso na sala de justiça…. acho que vc deve ter visto, que acaba de ir pro ar o Sonora, o projeto de música digital do Terra.
Para os orfãos da Usina do Som (como nós) é muito bacana pois trata-se de uma evolução. Ainda bem que o Terra teve a visão de ocupar este espaço que ficou vago.
Minha felicidade é dobrada, pois estou também colaborando profissionalmente com o projeto!!
1 abraço
Felipe Savone