A primeira que procurei foi a de 66. Mas nada! Nem um rojão, um grito de gol que tivesse me acordado. Nesta fase eu estava mais preocupado com o leitinho de cada dia ou com a fralda molhada. Melhor assim, afinal o desempenho da seleção não foi digno de lembrança.
Na de 70 eu tinha 5 anos e pouco, e foi uma Copa inesquecível. Pelo menos é o que sempre me disseram. E o que depois eu pude ver, com meus próprios olhos, nas reprises dos jogos. Lembrar mesmo só de poucas coisas. A primeira é do jogador Petras da Tchecoslováquia, comemorando o gol contra o Brasil de joelhos fazendo o sinal da cruz, ato que repeti nas brincadeiras dos dias seguintes ao jogo. A mesma comemoração foi também repetida, várias vezes, por Jairzinho.
Esta já era uma Copa de televisão, mas na lembrança seguinte estou sentado no chão da sala brincando, provavelmente de forte apache ou futebol de botão, e o rádio ao fundo narrando Itália e Alemanha, pelas semifinais da Copa. Um sensacional 4 x 3, decidido na prorrogação. Como somos imigrantes italianos, em casa, sempre torcemos por 2 seleções, Brasil e Itália. Em 70 acho que não teve confusão, mas nas Copas seguintes….. mas isto fica para os próximos capítulos.
Na seqüência já vem a final. Brasil x Itália, numa tarde de domingo. Morávamos em um pequeno prédio do Bixiga e tínhamos como vizinhos um casal de italianos, vindos da mesma cidade dos meus pais, o Mário e a Sisina (apelido de Tereza). Por alguma razão, lá estava eu assistindo o jogo com eles e me recordo muito bem do Mário orgulhoso de pé, vestindo uma “canutiera” (aquelas camisetas brancas sem mangas, prudentemente utilizadas pelos italianos por baixo da camisa), com a mão no peito cantando o hino da Itália. Fiquei por lá até o Brasil virar o jogo, apagar a empolgação do Mário, e entrar para a história como a melhor seleção de todos os tempos. Se apagou da minha memória o fim do jogo, os fogos, a comemoração…
No dia seguinte ao título estou sentado na escada do prédio brincando com uma linda menina, loirinha, olhos claros chamada Célia, neta de outros vizinhos. Nas mãos um adesivo da Copa com o Tigrão da Esso, que ganhei de meu pai.
Alguns dias depois meu irmão mais velho aparece em casa com um pôster, acho que editado pela Placar, que trazia uma ilustração de um brasileiro segurando a taça Jules Rimet e pulando com as travas da chuteira na língua de um mestre cuca italiano, para indignação da minha mãe, que até hoje não se conforma cada vez que a Azurra é vencida pelo escrete canarinho.
Outra coisa que impressionou um garoto de 5 anos e pouco, foi uma foto da comemoração de um gol do Brasil. Acho que dá final, que mostrava os jogadores em 3 planos, Jairzinho ajoelhado, Pelé dando o soco no ar e mais alguém chegando ao fundo. Acho que era isso e nunca mais vi esta foto!
A última lembrança é da chegada dos campeões. Como morávamos próximos da Federação Paulista de Futebol, fui levado pela minha mãe para ver os jogadores que desfilaram pela cidade em um carro de bombeiros. Era uma grande multidão e eu pequenininho lá no meio tentando ver alguma coisa. Provavelmente os jogadores paulista, Leão, Ado, Clodoaldo, Carlos Alberto… Mas de um eu me lembro muito bem. Roberto Rivelino e sua patada atômica!
Curioso notar que de futebol mesmo (gol, jogadas, dribles e defesas) não lembro de nada. Nesta fase me ligava mais nas coisas que estavam ao redor do que com o próprio futebol.
